O Poder de soltar II

October 29, 2016

 

A Teoria do Caos é o fundamento científico do budismo e do taoísmo. O Caos governa o universo e faz todos os ajustes necessários para que o equilíbrio permaneça. O Caos faz com que o fluxo seja contínuo às vezes e turbulento outras vezes. O Caos implica tanto no nível micro quanto no macro. O desapego não é uma coisa metafísica. Faz parte da essência do funcionamento do universo. Da mesma forma que não podemos forçar o clima que queremos, também não podemos forçar que um negócio dê certo. Existe uma ordem natural nas coisas. Este é o fluxo que faz as galáxias nascerem e prosperarem. Como também qualquer negócio ou necessidade humana. Se fizermos o que é preciso e deixarmos as coisas acontecerem naturalmente tudo correrá bem. 

 

Quando forçamos as coisas para acontecerem no tempo que o ego quer o problema é criado. Raramente o ego respeitará o fluxo universal. Quando a Iluminação acontece o ego passa a servir o universo e é neste caso que o ego não atrapalha o andamento. A questão aqui é que o tempo do universo não é o tempo humano. Às vezes pode levar anos até o resultado aparecer e isso acontecerá quando não se puser pressão. Como também pode ser no dia seguinte. O parâmetro sempre é não pressionar, não ter ansiedade, não forçar, etc. Acontecerá na hora certa. Isso é sabedoria milenar e toda pessoa que fizer a mesma experiência terá o mesmo resultado. Por isso falam que não dá para ensinar, é preciso vivenciar. Só se pode ensinar a técnica que é soltar.

 

A modelagem climática é feita com fórmulas matemáticas. Essas fórmulas precisam ser iteradas num computador veloz. O resultado da fórmula entra novamente na fórmula e sucessivamente isso é feito até que o resultado final aparece. O modelo está pronto e é compatível com a realidade observada. Não adianta fazer a computação com menos iterações. É preciso esperar até estar completa. É a mesma coisa com relação à Iluminação espiritual. Entra luz e a pessoa muda um pouco. Entra luz novamente e muda mais um pouco. Novamente isso é feito. Cada vez que entra luz a pessoa já está diferente pela luz que entrou na vez passada. É um efeito cumulativo. E é por isso que funciona. Nunca acontece na primeira vez. É preciso estar preparado para que possa acontecer. No Zen dizem que o mestre bate no discípulo e este se ilumina na hora. A explicação é que o discípulo já estava pronto e só faltava a última informação entrar. É exatamente isso que é o Caos.

 

O Colapso da função de onda é feito dentro do Caos. Uma única vez fazemos o colapso (a escolha de algo) e então deixamos o tempo passar. Soltamos o resultado. Continuamos trabalhando e estudando até que o resultado apareça, mas sem ansiedade e nem forçar. 

 

Quando se fala que o trabalho criativo é 10% inspiração e 90% transpiração é a mesma coisa que se está falando. Estuda-se o assunto para colocar o máximo de informação no subconsciente e depois deixamos a incubação ser concluída. Então acontecerá o insight a qualquer momento em que não se esteja ansioso.

 

O Caos não é falta de ordem e organização. É justamente a organização do universo. É o que mantém tudo funcionando. É a ordem subjacente que não vemos, mas podemos perceber intuitivamente. Tudo no universo está conectado com tudo o mais. As coisas aparentemente caóticas não são assim. Mesmo quando se lança dados num jogo é o Caos que está administrando o jogo. Acontece que o Caos é capaz de administrar qualquer resultado que aconteça. São as infinitas possibilidades. E isso é a beleza e elegância do jogo. Sempre é surpreendente. Essa falta de previsibilidade é que provoca a mudança contínua que é a essência do Caos. A mudança tem de acontecer para que novas informações possam ser adquiridas. Por isso um budista muda a pedra de posição quando passa por ela. Para a pedra foi um efeito caótico que não poderia ser previsto por ela. E assim a pedra ganha novas informações no seu caminho eterno de iluminação.

 

Quando entendemos isso a visão de mundo muda radicalmente e olhamos o universo de outra forma. Não há mais necessidade de por pressão para conseguir o que se pretende. Há uma ordem e se aquilo for benéfico acontecerá. Neste ponto é preciso entender que o jogo só termina quando acaba. Pondo pressão podemos conseguir algo por algum tempo, mas isso mudará inevitavelmente por causa do Caos, que restabelecerá o equilíbrio. Portanto, forçar não funciona. A história está cheia de exemplos deste tipo de ação que força as coisas contra o fluxo natural. E sempre o rio volta para o mar.

 

O importante aqui é que seguir o fluxo é o maior poder que existe. Não existe nada mais poderoso do que soltar. Só que é um paradoxo e o ego não consegue entender a lógica disso. Então racionaliza para forçar o acontecimento. Aprender a trabalhar com o Caos provê uma total libertação do paradigma vigente. Isso chama-se transcendência. E a característica disso é a evolução contínua, o crescimento sem parar, a mudança para melhor, a abertura para o novo, a aceitação da realidade, é estar em fluxo com o universo. E o sentimento de fluxo é o maior prazer que pode existir. Quando o foco está 100% no momento presente o fluxo é total e somos inundados pelos neurotransmissores que nos dão a alegria de viver em fluxo. Mais uma vez, só experimentando para saber o que é isso. Quando sentimos um prazer estético como Stendhal sentiu ao visitar Florença, o prazer máximo de contemplar obras de arte sem parar. Essa contemplação da beleza é o Zen. O soltar também dá este sentimento de fluxo cósmico, de unidade com a criação, de ser uno com o universo.

 

Isto deveria ser o objetivo da vida de todo ser. Conseguir este espírito contemplativo extático. No dia a dia. Trabalhando e sentindo isso. Estudando e sentindo isso. O tempo todo. Todo ser que estiver focado 100% num objetivo sentirá isso. Para sentir isso a pessoa precisa abandonar o sentimento de controle. O universo é pura incerteza em termos pessoais. Viver na incerteza é inevitável. Mas, podemos focar 100% mesmo na incerteza. Podemos colapsar a onda mesmo na incerteza. Desta incerteza é que nasce o Cisne Negro. Os eventos de criatividade absoluta. Essa criatividade é parte da essência do universo. E ela flui por nós sem cessar. Basta aquietar a mente para percebe-la. O bater das asas da borboleta é criativo porque é extremamente sutil. Parece não influenciar nada, mas este bater das asas provoca um feedback positivo que é realimentado sem cessar. É a iteração da fórmula com o bater das asas, sendo que a informação entra na fórmula vezes sem conta. A exponenciação disso gera a tempestade. E a simples borboleta está apenas focada em voar, mas as consequências do seu voo são inimagináveis.

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